sábado, 7 de maio de 2022

My heavy heart

 

My heavy heart

A canção do Coldplay toca no rádio do carro. Your heavy heart é feito de pedra. Você não precisa ser sozinha....voltando das compras, na entrada do supermercado, havia um quiosque de venda de flores. Pequenos punhados de flores enroladas em um papel seda – como nas comédias românticas – e, ao olhá-las, senti-me profundamente solitária. Queria receber flores de alguém que chega e fica feliz ao me encontrar. Sim, minha filha fica feliz ao me encontrar, todas as vezes. Mas, queria sentir o quente de um abraço adulto de desejo, o beijo depois da saudade e espera. Queria encaixar meu queixo na curva do ombro de alguém e sentir-me segura.

Sim, não preciso.

Mas há em mim uma urgência em vivenciar um amor que não virá, eu sei. Sentir o sol quente deitada em um gramado, num sábado comum, falar sobre árvores balançando. Nada sobre projetos, publicações, bolsas para pesquisa. Queria a ilusão de me sentir única, amada e especial. Your heavy heart... ecoa em meus ouvidos e desejo um punhado de flores para acalmar a falta que sempre cortou minha palavra. Essa vontade de ser outra, de ser em outro lugar, de ser amada.

Quem inventou o amor? Me explica por favor.

Assim, faço arremedo e volto para mim mesma.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

no te vayas

A  palavra me veio tarde. É o poema do Benedetti. A metáfora dos barcos, a súplica ali contida. Quis teu regresso. Que deixasse as roupas em casa, que teus olhos de lua encontrassem os meus pela manhã. Todas elas. "Pero vos por favor no te vayas". E os versos riscavam minha noite vazia. As palavras que cabem em mim, mas não me habitam mais. Como pedir para não ir aquele que nunca ficou? O desastre do desamor alinhado num escrito de tão pouco. Tudo caberia na vida se você tivesse ficado. Segurado minha mão com apreço, sem arrogância. Olhando-me como quem eu era. Você me via? Via a minha dor? Ocupou-se dela por preocupação ou culpa? Justificou-se lamuriando para si coisas ditas para que servissem como certas para você? Disse para si mesmo que não enganaste ninguém? Que todos souberam de tudo e tudo estava às claras? Por favor. No te vayas. Viste em meu olhos esse pedido todas as vezes. Viste. Leste e ainda partiu. Todas as vezes. Me tiraste as palavras e a crença do amor como uma baía linda e generosa. Eu sei, não voltarás, mas por favor, não vá. 

sábado, 18 de janeiro de 2020

Desenhei miragem tolas

As palavras são de uma canção do Skank. As músicas da banda narraram acontecimentos durante toda a minha vida, em especial, a amorosa. E, no final do ano passado, o vocalista concedeu uma entrevista e disse: é o fim. Na correria, não tive tempo de pensar o que realmente aquilo significava, mas ao ouvir Fotos na Estante, enquanto procurava um livro na pequena livraria no centro de Santa Maria, pensei que a metáfora do fim também cabia a mim. Sem novas canções, o  amor (ou a ilusão que tenho sobre...) ficara atrelado ao um punhado de versos antigos e gastos na boca. Não haverá para ele nenhuma letra nova que o faça renascer e me faça identificar: "nossa, é isso que eu sinto. Sem o Skank tudo o que eu sentia e se encaixava - de quando em quando - naquela batidinha romântica, ou ainda, as definições que me foram dadas ("pois amores imperfeitos são as flores da estação") ficarão no passado que, por vez ou outra, será recuperado em alguma festa, encontro com os amigos, melhores canções dos anos tal. E só. Fiquei, então, aliviada.
Sempre achei os versos  "desenhei miragens tolas nas margens do seu deserto/e uma verdade impossível só pra ter você por perto" algo que representava o modo como amorosamente crio as versões de algumas pessoas em minha vida. Sempre achei que o Skank continuaria a cantar canções que continuariam a representar o caminho de  meus amores. Mas o Skank acabou e passado o atordoamento, fiquei feliz, pois as coisas inventadas, desenhadas, impossíveis, podem - assim como as músicas da banda - ficar no passado e aparecerem (melhor seria se não) só de quando em quando. Agora começo uma nova trilha sonora. Sem "memórias irreais do que nunca aconteceu."

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Da irmandade

Fui criada muito no interior e lá, mesmo a contragosto - em muitos casos - éramos pessoas coletivas. Eram tias, primas, vizinhas, amigas da escola. Uma rede de proteção e, mesmo que não tivéssemos direto à privacidade, pois éramos vigiadas, aconselhadas, vestidas e cuidadas por um todas, não nos importávamos verdadeiramente. Para mim, as tardes nas cadas das tias, avós, vizinhas..., tinham um efeito reconfortante. Relações majoritariamente femininas, por isso lembro-me de que ficavam em casa as crianças da minha vizinha quando ela ia para algum lugar, por isso nós ficávamos na casa dela quando a mãe saia. Era uma sororidade brusca, mas, ainda assim, nos fazia (a mim pelo menos) ter a impressão de pertença. E eu sempre precisei pertencer.
Tudo isso para falar da Silvana.
Pois bem, Silvana não foi minha vizinha. Moramos perto por algum tempo, ela casa do fundo do portão azul, eu, com a minha mãe e meu irmão. Conto da Silvana, pois pedi outro dia umas receitas culinárias e ela me mandou com uma observação de que as trocas de receitas indicavam, ao menos, um tempo mais tranquilo para nós duas. Dois, três anos atrás, estávamos as duas afundadas em complicações vindas do trabalho, da vida acadêmica, da maternidade...
Então pensei em responder dizendo que sempre houve tranquilidade quando conversava com ela. E quis dizer que em momentos muito difíceis, apenas o fato de tê-la por perto, me trazia um alívio igual aquele que encontramos quando sabemos que vamos deixar nossos filhos com alguém de confiança. Pois bem, Silvana sempre foi de confiança. Muito mais ela comigo do que eu com ela. Sempre que sentava no sofá da casa dela e narrava meu sem fim de aflições sabia que ela não me julgaria, não ficaria me dando conselho bobo, me ouviria e certamente ficaria do meu lado e terminaríamos a conversa com um bom café. E era isso que eu precisava. Ter esse sentimento de pertencer a algum lugar, porque sempre tive a impressão de ser tão deslocada, mas com a Sil tudo parecia certo. Talvez tenhamos chegado à maturidade, são quase 20 anos juntas

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Dos defeitos

(...) Arre, estou farto de semideuses! (Poema em linha reta, FP)

Gosto de gente com defeitos. Aquelas estranhezas que todos temos guardadas, mas em alguns elas parecem de forma abrupta. Gosto de gente que sai de casa de manhã desalinhado, que esquece coisas, que perde documentos importantes. Gosto, pois eu mesma sou atrapalhada e cheia de defeitos. E o tempo que eu passo tentando escondê-los me é muito custoso. Então, gosto de ver que as pessoas que me cercam, os sujeitos que amo, são, assim como eu, imperfeitos. Gauche. Esse é o adjetivo que tomo de Drummond. Gauche é ser fora do traço das estatísticas, demorar-se em decidir e, invariavelmente, escolher errado.

domingo, 29 de outubro de 2017

Sol de Santa Maria

Sou das andanças. Deve ser o sangue cigano de minha avó paterna. Há em minhas memórias: rios,  figueiras, parreirais, grandes campos verdes dobrados com os ventos, sangas, minas d'água, avencas e sol. E em Santa Maria o sol é, por força de classificação, difuso. Há uma intensidade desdobrada nos morros que cercam a cidade, criando uma espécie de caleidoscópio de pequenos raios que rebrilham por entre as árvores. E criam uma imagem para a nostalgia, para a saudade. E no silêncio de minha casa vazia o sol ia preenchendo esses lugares que não fazem sentidos por dizeres.  Minha casa. Que pronome inadequado. Quem é de andanças já não tem pronomes possessivos em narrativas de passagens aqui e acolá. Há, de certo, o contrário: despertencimento. E era esse sentimento que os raios do sol de Santa Maria curavam. Do mirante de Silveira Martins até os prados de Arroio Grande, com o vento quente de dezembro ou o sul de inverno, havia uma permanência: aquele jeito peculiar que o sol descia pelas pastagens e alagados. Não é da ordem do repetível. Só lá eu via aquele sol. O sol de Santa Maria.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Da passagem do tempo aos cinco anos


Fomos ao parquinho de uma cidade vizinha de Santa Maria. Caminho lindo de interior: vinhedos, gado, morros. Dois ou três meses que não percorríamos essa estrada e Cecília:

- Ai mamãe que saudades dos velhos tempos de Silveira Martins.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Listas

Tudo é lista no mundo. Lista de 10 coisas mais interessantes, dez lugares mais lindos, melhores filmes, lista de delações, de atores. É tanta lista que tenho que fazer uma lista sobre as indicações das listas para um dia eu ler, assistir, viajar.
E aí começa o imbróglio. Eu não sou de listas. Não faço nem para supermercado (por isso preciso voltar umas duas vezes depois). Não fiz para aquelas coisas de maternidades: 32 itens indispensáveis para se levar para a maternidade (depois descobri que se resumem a dois: fralda e aqueles conjuntinhos de blusinha e calça com pezinho). Por ter uma natureza dispersa (déficit de atenção) se eu faço lista eu esqueço que fiz ou perco, ou deixo no balcão de algum móvel antes de sair. Resumindo: lista para mim é um luxo inatingível. Sim, sim, estou falando de dois tipos de listas, mas que no final das contas se prestam ao mesmo papel: sintetizar, ordenar e limitar. Acho até bem racional para o supermercado, mas para filmes, livros, músicas, etc. acho um desperdício de tempo. Só eu sei os meus filmes preferidos e eles não estão em uma lista em que um ganha do outro. Depende do contexto, das condições em que me encontro. Assim também funciona com a música: imagina eu que associo música a pessoas! Que tipo de lista seria?  Imagina ter que listar as comidas favoritas, quando todas as comidas são favoritas! Eu não sei. Pode parecer meio anarquista essa linha de raciocínio, mas listar coisas, lugares, livros, me parece tão ilógico e muito a cara dos nossos tempos: a padronização dos sentimentos. Sempre me sinto um item fora da lista, para não perder a metáfora.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Do amor que nos redime

Cecília fez, em setembro, cinco anos. Ela é como toda criança de cinco anos: transforma o mundo em um lugar mágico, melhor e mais colorido. E transborda amor, sempre. Toda noite eu faço o "mamá"  dela e como faço desde que introduzi a mamadeira, fervi e fui retirar da panela, pequei o fundo do objeto com a mão mesmo, por puro costume. E ela, do outro lado da cozinha, olhinhos aflitos:
- Mamãe, pega um garfo para tirar o resto. Não quero que você queime o seus dedinhos. Dói muito.
Me senti como sempre me sinto quando ela me diz essas coisas: com um aperto no coração de tanto amor. Deixei tudo e a segurei no colo bem apertado. Eu nunca imaginei a maternidade para mim. Não sou o tipo babão de mãe, nem curto muito para ser sincera, entretanto, é inegável que o amor que nos une a um filho é algo absolutamente pleno: nos dias mais turbulentos, nas grandes canseiras, no descompasso do mundo, tudo o que eu quero é chegar em casa e sentir o cheirinho da Cecília. Ele resume, de forma precária, o amor: saber que há alguém no mundo que não vai se importar com nada além de você, mesmo com a ilusão que sempre alimentei de conhecê-la profundamente, o que acontece é justamente o contrário: ela me conhece e  me ama sem reservas. Fiz escolhas muito ruins na minha história e que me ensinaram valiosas lições, fiz também outras que me deram algum conforto, escolher ficar sempre por perto da Cecília foi a mais acertada de todas. Não por ela, por mim. Eu precisava de amor incondicional e encontrei. Para fechar esse escrito, enquanto ela estava em meu colo, ela disse baixinho:
- Tudo bem mamãe, se você queimar o seu dedinho, eu cuido de você: coloco gelinho e remédio. Ela não sabe ainda, mas todos os dias ela coloca o remédio. Todos os dias.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Dos rios que margeiam nossa vida.

A saudade é um rio que atravessa nossa vida. Digo rio, pois, não há para mim, melhor metáfora. E a metáfora como bem sabemos é um transbordamento de sentidos. Por isso, o rio: ele sempre margeia a terra firme, sem de fato ocupar-se de parar, sempre corre, mas leva sempre, sempre lava, molha, marca. Quem cresce com rios em sua infância os guarda para sempre - como um singular Tejo - desdobrado em acalantadas memórias de gritarias, risadas e, no meu caso, amor.  Eu tenho um rio: o Laranjeiras. Os que de mim sabem, conhecem minha relação com aquelas longínquas águas. Nelas cabem todo o meu mistério: a casa  da bruxa, o balanço que cortava o rio, as muitas horas dentro da água fria cortada pelos filetes de sol que atravessavam a vegetação, os pés de ariticuns até chegar às águas e, em meu último contato com o Laranjeiras, a explicação sobre os seixos.  Sempre fui de terceiras margens. Sempre alonguei-me em mim e nos rios para que pudesse arranjar em palavras tudo o que sentiae virar rio é virar coisa que não carece de explicação.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Chuva

Escrevo.É meu trabalho em tempo integral nos últimos dois anos. Na janela a chuva cai torrencialmente. Sempre tive uma intimidade ancestral com a chuva: antes, quando menina, medo, agora, calma. Volto-me para meu pequeno caos interior, lembro-me lentamente de assuntos e pessoas, divago enquanto ouço retumbar nos objetos do quintal, as grossas gotas de chuva. Se tivesse lágrimas choraria. Mas não tenho. O que há é esse silêncio de casa vazia. Leio um autor russo que fala da significação e da vida. Quais os significados da chuva? Por que algumas palavras brotam em meu interior com tanta força? Qual a história delas? Por que ando eu a fazer tantas perguntas? Deve ser a chuva. Olho novamente para a janela, o escuro do temporal ainda toma conta da manhã. Escrevo. É meu trabalho e há nisso tanta solidão.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Ônibus

A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento. Marquei a página de O livro do riso e do esquecimento, do Kundera e concentrei-me na paisagem que corria pela janela do ônibus. Faz um tempo que ando de ônibus com livros em minhas bolsas. Lê-los é fugir um pouco do sufocamento das pessoas que empoleiram-se nos coletivos, daqueles rostos sofridos e cheios de desesperança. Olho para os morros que margeiam a cidade: a luminosidade solar me faz lembrar o tempo em que morava perto do mar. Queria o mar, não por ter com ele relação idílica, apenas para ver sumir naquela imensidão horizontal todas as minhas pequenas-burguesas angústias. Sinto-me contista nos ônibus. As palavras que estão tão técnicas em  meu dia-a-dia, de repente ganham outro contorno e vão tecendo outras de mim. Vejo-me desfilar em diálogos mudos com pessoas que não são. Sou bruscamente retirada de minhas profundezas por um comentário do passageiro ao meu  lado. Foi para mim?  Para si próprio? Importa? A sineta da parada, o empurra-empurra, sinto-me exausta e volto-me para Kundera. Sobrou o chapéu de Clementis. Todas as lembranças que temos e que nos são inadequadas cabem na metáfora do chapéu de Clementis. Todo o dia de ontem. Todas as respostas mentirosas. Todo o amor foi tirado da fotografia, sobrou apenas o chapéu. E eu luto contra ele também. No ônibus. Sendo outra mulher. Uma versão melhor, menos iludida.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Das roupas que ensinamos nossas filhas a usar

Eu não sei bem se estou no caminho mais adequado da maternidade. Aliás, a dúvida é sempre a fiel companheira das mães, mas uso esse espaço para relatar para mim mesma em grande parte, as experiências da maternidade. Estamos na fase: Cecília escolhe a roupa que quer vestir. Aliás, vou logo dizendo que acho linda aquelas menininhas de vestidos com as tiaras ornando, acho mesmo, porém, Cecília não é uma dessas meninas. No começo do processo eu queria que ela usasse as roupas que eu achava mais legais, inútil, tudo virava uma grande confusão, briga e choreiro. Ela não gosta de amarrar cabelo, até gosta, mas só quando quer. E as roupas são assim. Até os 3 anos ela não usou, basicamente, nenhuma saia. Odiava. Agora ama e tal ponto de querer, em temperatura beirando zero grau, ir de saia para a escola. Mas não é só a saia, ela gosta de colocar peças sobre peças: bermuda sobre calça, saia sobre calça jeans e tudo o mais colorido possível: outro dia, foi com uma saia verde super rodada, uma calça legging bordo, meia cinza, sapato amarelo e uma camiseta branca com um bolero preto. Assim mesmo, coloridíssima. Passei na rua por algumas pessoas que a olhavam e o primeiro pensamento foi: deveria ter ajudado com a roupa hoje, mas logo em seguida eu pensei: por qual motivo? Ela ia linda, confiante e sorridente. Não se sentia constrangida, sentia-se poderosa com a escolha que havia feito. E vendo a atitude dela, refleti sobre a minha própria insegurança e ponderei que ela, muito melhor do que eu, vai olhar para o mundo como uma mulher que não se permite medir pela roupa. Ah! O que se pode aprender com as crianças.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Maria Evilma

Maria E. Sim é uma referência à personagem Bela B. do livro Hilda Furacão, de Roberto Drummond. Poderia narrar toda a história de nosso encontro nesse mundo, mas isso seria, por certo, muito pouco proveitoso, pois as palavras não dariam conta. Então fiz esse escrito, pois vi a foto de Maria E. careca, assim como no livro do Meninos Pelados de Graciliano Ramos que Cecília tanto gosta. Achei que fosse coincidência, mas é não. O amor tem desses melindres: um dia lá, outro aqui. E para percorrer tudo: a amizade e o querer bem de sempre.

Sempre foi de mato.
Mostrei o poema do Manoel de Barros e virou árvore.
palavras e rios ficam melhores com os que são do mato.
Tem gosto para estrepolias, Coisas de causar arrepio em gente branda feito eu, mas de braço dado atravessando a rua, a coragem era dividida. Sempre foi. Até a porta do ônibus e com o assunto longo feito a colcha da Penélope.
Arquiteta casas: de passarinhos, de gente, de cachorros. Sempre com uma cobertura de flor para todos. E para que mais serviria uma casa se não tivesse flores?
E quem escreve o mundo pela luta, escreve melhor e com mais poesia, para que o riso farfalhe como as asas da borboleta .
Sempre foi de mato, de palavra e de amor.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Os caminhos de fazer crescer gente

Sou mãe. É a única coisa permanente em minha inteira existência. Mas maternar é de complexidade ilimitada, pois além do mundo, ainda lidamos com nossas próprias expectativas e fantasmas. Pois bem. Cecília fará cinco anos e as perguntas que ouço são: ela já está aprendendo escrever? ela já está em alguma atividade extracurricular? Ela....? Eu não sei ao certo o que as pessoas esperam de uma criança, aos cinco anos, eu espero o seguinte: que ela brinque, cante e dance, que ela se sinta amada, que goste dos bichos, que se suje, que imagine histórias, isso a Cecília sempre fez. Eu não  tenho angústias em relação ao futuro dela. Ela é feliz e ela tem um tempo próprio para resolver as suas questões: saiu da fralda quando quis e nunca mais voltou, nem à noite. Saiu da minha cama quando quis, volta quando tem medo de dormir sozinha. Vai em uma escola em que eles brincam o dia todo. Eu já disse em outros escritos: ela não será presidenta (ou será), eu não tenho a pretensão de que ela cresça e cuide de mim um dia. Eu quero que ela cresça e seja feliz, resolvida, do mundo e livre. Ela não lê e não escreve, mas canta, dança, borda, faz colares. A escrita é uma das muitas formas de verbalizar o mundo. Ela tem tantas e tão maravilhosas que escrever, quando chegar o tempo dela, será mais uma. E é essa é uma das muitas coisas que aprendi com ela. Ela tem o tempo dela e não é igual ao meu. O mundo para ela não tem nenhuma das preocupações que tem para mim, é um grande quintal e é assim que tem que ser. Eu quero para ela a humanidade que vem da experiência, do vivido, do sentido e isso ocorre antes das palavras, aliás, ela só terá palavras se tiver o mundo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O ruído do mundo

O rangido do mundo
A maquinaria da vida
Eu respiro como quem volta à tona
Como quem quer sentir o ar
O rangido dos carros, carrinhos, ônibus, pessoas,
Uma massa de carne e funilaria se mistura na rua
Eu olho o céu
Para sentir o sol
Para ver passar o passarinho. Sem ouvi-lo
A pressa do dinheiro
Do tempo
Da vida
Que se esgota na angústia do dia que se vai
Para recomeçar
E acabar
E recomeçar
Como o relógio ponto
Eu paro como quem subverte o mundo
Para ouvir a música
Para descompensar a vota dos ponteiros
Eu paro mesmo, para as palavras da poesia

domingo, 11 de setembro de 2016

Da felicidade de um dia de sol

O sol brilha no quintal. Capino a horta, ralho com a Cecília, os morangos estão ficando vermelhos. Então, entrego-me à frágil sensação da felicidade, aquele instante em que tudo parece no lugar. Sou de entremeios, quase nunca percebo essa alegria singela em não ser ninguém: em afundar-me no cotidiano sem esperar grandes acontecimentos. Talvez seja uma fuga. Talvez medo. Mas já passei por tempestades suficientes para saber que essa calmaria pode ser só calmaria. Nada que venha antes, nada que desperte a ansiedade. Não há primeiro a felicidade para logo em seguida sermos castigadas pela infelicidade do não merecimento. Somos felizes assim, aos poucos. Por isso não me iludo: planto a horta, escrevo, planto o jardim, cuido da Cecília, escrevo. A pouca glória da rotina me é um abrigo. Canso-me facilmente das atribulações dos sujeitos empertigados, daqueles que estão sempre atrás de uma agitação, como se a calma testemunhasse alguma forma de derrota. Pois se assim é, estou eu então, derrotada. Como meu chocolate, sem ocupar-me do papel de estanho, por isso não deito tudo no chão. Já estou lá. Sinto a grama e não sou ninguém.

sábado, 10 de setembro de 2016

A mulher desiludida

Não é meu o título. É da Simone Beauvoir. Um livro com três contos sobre mulheres distintas. Voltando do centro, quase uma hora de ônibus, leio o livro e penso qual delas eu seria. Voltava da terapia e me sentia desbotada como se todas aquelas mulheres me habitassem. Não faço pergunta porque não quero ouvir as respostas. O enunciado rompeu minha frágil redoma e desejei voltar ao tempo e fazer as perguntas. Todas elas. Você me ama? Por que eu não posso ser assim? Posso ficar? Por que você não me escolheu? Você gostou do poema? Por que você me telefonou? Posso ir embora agora? Você me ama? Senti-me, então, esvaziada, como se as perguntas todas fossem as respostas. Senti-me mesmo triste por ter perdido minhas perguntas preciosas e porque as respostas não me importavam mais. Estava desiludida. O gélido fim da tarde, a chuva que insistia em escorrer, a lama grudada em meus sapatos, as pontas das roupas molhadas, as pessoas sisudas que entravam e saiam do ônibus ansiando não precisar se mexer, contornavam minha desilusão. Adornavam a quente sensação de deixar partir tantos anos de cuidados com as feridas. Se elas estavam fechadas? Qual a importância? Mesmo a mágoa é um sentimento que não passa de uma desilusão. E me senti calma. Apenas queria manter vazia minhas entranhas. Olhava a chuva, via o dia afundar-se novamente, um atropelo de angustias brotavam como mofos. Isso. Muita chuva e os mofos brotam aqui e ali. Manchando paredes. Eu estava manchada.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

felicidade

Ando feliz de uns tempos para cá. Aprendi com a Gesulada. Não é um polianismo, mas é. Ontem voltando para casa depois dois dias inteiros fora dela, sem acordar e ver a Cecília, escutei a vozinha dela perguntando se tudo estava certo. Cinco anos. Parecia mais, uma emoção tomou conta de mim, tive que conter as lágrimas de felicidade quando ela disse que me amava e que me esperaria acordada para um abraço. Ela não consegue eu sei, dorme cedo. Mas ela queria. Sabia que eu queria sentir aquele quentinho que vem do amor que ela sente. Isso é a felicidade. Não há outro nome para isso. E ao invés de me concentrar em todos as coisas do mundo, preferi me concentrar no amor da Cecília. Tudo parecia tão certo e não questionei mais nada. Só agradeci.

domingo, 24 de julho de 2016

Ironia

Eu dirigindo com a Cecília na cadeirinha:
- Gosto tanto de quem não usa a seta....
- Você gosta mamãe? Você disse que não gostava
Explico a ironia. Digo para ela que não gosto, que eu falei com a entonação enfadonha. Linguística e efeitos de sentido...
Dias depois. Recuperando-se de uma inflamação de garganta, quase nos últimos dias de um antibiótico horroroso:
- Nossa mamãe, esse remédio está maravilhosamente gostoso.
Estranho e confirmo se dei o remédio certo.
- Que coisa né filha? Depois de tanto tempo ficar gostoso é inédito.
- Ai mamãe. É ironia. Não percebeu meu tom de voz?
Fiquei pasma. E muda. O que eu poderia dizer num momento desse?


My heavy heart

  My heavy heart A canção do Coldplay toca no rádio do carro. Your heavy heart é feito de pedra. Você não precisa ser sozinha....voltando ...