terça-feira, 4 de abril de 2017

Listas

Tudo é lista no mundo. Lista de 10 coisas mais interessantes, dez lugares mais lindos, melhores filmes, lista de delações, de atores. É tanta lista que tenho que fazer uma lista sobre as indicações das listas para um dia eu ler, assistir, viajar.
E aí começa o imbróglio. Eu não sou de listas. Não faço nem para supermercado (por isso preciso voltar umas duas vezes depois). Não fiz para aquelas coisas de maternidades: 32 itens indispensáveis para se levar para a maternidade (depois descobri que se resumem a dois: fralda e aqueles conjuntinhos de blusinha e calça com pezinho). Por ter uma natureza dispersa (déficit de atenção) se eu faço lista eu esqueço que fiz ou perco, ou deixo no balcão de algum móvel antes de sair. Resumindo: lista para mim é um luxo inatingível. Sim, sim, estou falando de dois tipos de listas, mas que no final das contas se prestam ao mesmo papel: sintetizar, ordenar e limitar. Acho até bem racional para o supermercado, mas para filmes, livros, músicas, etc. acho um desperdício de tempo. Só eu sei os meus filmes preferidos e eles não estão em uma lista em que um ganha do outro. Depende do contexto, das condições em que me encontro. Assim também funciona com a música: imagina eu que associo música a pessoas! Que tipo de lista seria?  Imagina ter que listar as comidas favoritas, quando todas as comidas são favoritas! Eu não sei. Pode parecer meio anarquista essa linha de raciocínio, mas listar coisas, lugares, livros, me parece tão ilógico e muito a cara dos nossos tempos: a padronização dos sentimentos. Sempre me sinto um item fora da lista, para não perder a metáfora.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Do amor que nos redime

Cecília fez, em setembro, cinco anos. Ela é como toda criança de cinco anos: transforma o mundo em um lugar mágico, melhor e mais colorido. E transborda amor, sempre. Toda noite eu faço o "mamá"  dela e como faço desde que introduzi a mamadeira, fervi e fui retirar da panela, pequei o fundo do objeto com a mão mesmo, por puro costume. E ela, do outro lado da cozinha, olhinhos aflitos:
- Mamãe, pega um garfo para tirar o resto. Não quero que você queime o seus dedinhos. Dói muito.
Me senti como sempre me sinto quando ela me diz essas coisas: com um aperto no coração de tanto amor. Deixei tudo e a segurei no colo bem apertado. Eu nunca imaginei a maternidade para mim. Não sou o tipo babão de mãe, nem curto muito para ser sincera, entretanto, é inegável que o amor que nos une a um filho é algo absolutamente pleno: nos dias mais turbulentos, nas grandes canseiras, no descompasso do mundo, tudo o que eu quero é chegar em casa e sentir o cheirinho da Cecília. Ele resume, de forma precária, o amor: saber que há alguém no mundo que não vai se importar com nada além de você, mesmo com a ilusão que sempre alimentei de conhecê-la profundamente, o que acontece é justamente o contrário: ela me conhece e  me ama sem reservas. Fiz escolhas muito ruins na minha história e que me ensinaram valiosas lições, fiz também outras que me deram algum conforto, escolher ficar sempre por perto da Cecília foi a mais acertada de todas. Não por ela, por mim. Eu precisava de amor incondicional e encontrei. Para fechar esse escrito, enquanto ela estava em meu colo, ela disse baixinho:
- Tudo bem mamãe, se você queimar o seu dedinho, eu cuido de você: coloco gelinho e remédio. Ela não sabe ainda, mas todos os dias ela coloca o remédio. Todos os dias.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Dos rios que margeiam nossa vida.

A saudade é um rio que atravessa nossa vida. Digo rio, pois, não há para mim, melhor metáfora. E a metáfora como bem sabemos é um transbordamento de sentidos. Por isso, o rio: ele sempre margeia a terra firme, sem de fato ocupar-se de parar, sempre corre, mas leva sempre, sempre lava, molha, marca. Quem cresce com rios em sua infância os guarda para sempre - como um singular Tejo - desdobrado em acalantadas memórias de gritarias, risadas e, no meu caso, amor.  Eu tenho um rio: o Laranjeiras. Os que de mim sabem, conhecem minha relação com aquelas longínquas águas. Nelas cabem todo o meu mistério: a casa  da bruxa, o balanço que cortava o rio, as muitas horas dentro da água fria cortada pelos filetes de sol que atravessavam a vegetação, os pés de ariticuns até chegar às águas e, em meu último contato com o Laranjeiras, a explicação sobre os seixos.  Sempre fui de terceiras margens. Sempre alonguei-me em mim e nos rios para que pudesse arranjar em palavras tudo o que sentiae virar rio é virar coisa que não carece de explicação.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Chuva

Escrevo.É meu trabalho em tempo integral nos últimos dois anos. Na janela a chuva cai torrencialmente. Sempre tive uma intimidade ancestral com a chuva: antes, quando menina, medo, agora, calma. Volto-me para meu pequeno caos interior, lembro-me lentamente de assuntos e pessoas, divago enquanto ouço retumbar nos objetos do quintal, as grossas gotas de chuva. Se tivesse lágrimas choraria. Mas não tenho. O que há é esse silêncio de casa vazia. Leio um autor russo que fala da significação e da vida. Quais os significados da chuva? Por que algumas palavras brotam em meu interior com tanta força? Qual a história delas? Por que ando eu a fazer tantas perguntas? Deve ser a chuva. Olho novamente para a janela, o escuro do temporal ainda toma conta da manhã. Escrevo. É meu trabalho e há nisso tanta solidão.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Ônibus

A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento. Marquei a página de O livro do riso e do esquecimento, do Kundera e concentrei-me na paisagem que corria pela janela do ônibus. Faz um tempo que ando de ônibus com livros em minhas bolsas. Lê-los é fugir um pouco do sufocamento das pessoas que empoleiram-se nos coletivos, daqueles rostos sofridos e cheios de desesperança. Olho para os morros que margeiam a cidade: a luminosidade solar me faz lembrar o tempo em que morava perto do mar. Queria o mar, não por ter com ele relação idílica, apenas para ver sumir naquela imensidão horizontal todas as minhas pequenas-burguesas angústias. Sinto-me contista nos ônibus. As palavras que estão tão técnicas em  meu dia-a-dia, de repente ganham outro contorno e vão tecendo outras de mim. Vejo-me desfilar em diálogos mudos com pessoas que não são. Sou bruscamente retirada de minhas profundezas por um comentário do passageiro ao meu  lado. Foi para mim?  Para si próprio? Importa? A sineta da parada, o empurra-empurra, sinto-me exausta e volto-me para Kundera. Sobrou o chapéu de Clementis. Todas as lembranças que temos e que nos são inadequadas cabem na metáfora do chapéu de Clementis. Todo o dia de ontem. Todas as respostas mentirosas. Todo o amor foi tirado da fotografia, sobrou apenas o chapéu. E eu luto contra ele também. No ônibus. Sendo outra mulher. Uma versão melhor, menos iludida.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Das roupas que ensinamos nossas filhas a usar

Eu não sei bem se estou no caminho mais adequado da maternidade. Aliás, a dúvida é sempre a fiel companheira das mães, mas uso esse espaço para relatar para mim mesma em grande parte, as experiências da maternidade. Estamos na fase: Cecília escolhe a roupa que quer vestir. Aliás, vou logo dizendo que acho linda aquelas menininhas de vestidos com as tiaras ornando, acho mesmo, porém, Cecília não é uma dessas meninas. No começo do processo eu queria que ela usasse as roupas que eu achava mais legais, inútil, tudo virava uma grande confusão, briga e choreiro. Ela não gosta de amarrar cabelo, até gosta, mas só quando quer. E as roupas são assim. Até os 3 anos ela não usou, basicamente, nenhuma saia. Odiava. Agora ama e tal ponto de querer, em temperatura beirando zero grau, ir de saia para a escola. Mas não é só a saia, ela gosta de colocar peças sobre peças: bermuda sobre calça, saia sobre calça jeans e tudo o mais colorido possível: outro dia, foi com uma saia verde super rodada, uma calça legging bordo, meia cinza, sapato amarelo e uma camiseta branca com um bolero preto. Assim mesmo, coloridíssima. Passei na rua por algumas pessoas que a olhavam e o primeiro pensamento foi: deveria ter ajudado com a roupa hoje, mas logo em seguida eu pensei: por qual motivo? Ela ia linda, confiante e sorridente. Não se sentia constrangida, sentia-se poderosa com a escolha que havia feito. E vendo a atitude dela, refleti sobre a minha própria insegurança e ponderei que ela, muito melhor do que eu, vai olhar para o mundo como uma mulher que não se permite medir pela roupa. Ah! O que se pode aprender com as crianças.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Maria Evilma

Maria E. Sim é uma referência à personagem Bela B. do livro Hilda Furacão, de Roberto Drummond. Poderia narrar toda a história de nosso encontro nesse mundo, mas isso seria, por certo, muito pouco proveitoso, pois as palavras não dariam conta. Então fiz esse escrito, pois vi a foto de Maria E. careca, assim como no livro do Meninos Pelados de Graciliano Ramos que Cecília tanto gosta. Achei que fosse coincidência, mas é não. O amor tem desses melindres: um dia lá, outro aqui. E para percorrer tudo: a amizade e o querer bem de sempre.

Sempre foi de mato.
Mostrei o poema do Manoel de Barros e virou árvore.
palavras e rios ficam melhores com os que são do mato.
Tem gosto para estrepolias, Coisas de causar arrepio em gente branda feito eu, mas de braço dado atravessando a rua, a coragem era dividida. Sempre foi. Até a porta do ônibus e com o assunto longo feito a colcha da Penélope.
Arquiteta casas: de passarinhos, de gente, de cachorros. Sempre com uma cobertura de flor para todos. E para que mais serviria uma casa se não tivesse flores?
E quem escreve o mundo pela luta, escreve melhor e com mais poesia, para que o riso farfalhe como as asas da borboleta .
Sempre foi de mato, de palavra e de amor.

My heavy heart

  My heavy heart A canção do Coldplay toca no rádio do carro. Your heavy heart é feito de pedra. Você não precisa ser sozinha....voltando ...