terça-feira, 14 de junho de 2016

Eu leio para encontrar nos poemas, nas palavras, alguma coisa faltante em mim. Não é fraqueza. Os meus tempos foram feitos de pedra, de asperezas, do silêncio daquilo que ficou por dizer. Então, espio nas palavras o mundo. Não há mansidão em mim. Tormento como quem deseja o impossível, como quem espera o beijo, como quem sabe que para o sentimento latente não há abrandamento. Assim pulsam os dias diante dos meus olhos. Pulsam as palavras e eu tento prendê-las, capturá-las para me fazer nominável. Eu quero mesmo a palavra para dizer da saudade. Para fazer presente em mim os mundos ausentes. Ah, mas contraditória que sou, gostaria mesmo de não precisar de palavra alguma e caber na imensidão do abraço que agora me falta. Mirar teus olhos de lua e ver tudo explicado.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Cecilices

Ilusão
- Mamãe o que é uma ilusão?
- É uma coisa que você pensa que é mais não é.
- Hum.
Passa um tempo
- Mamãe eu pensei que eu vi a Lisbela, mas não vi. Isso é uma ilusão?

Linguística
Na volta da escola,passamos na padaria. Ela escolhe uma barra de cereal nunca antes provada. Gosta demais e vem o resto do caminho dizendo o quanto gostou.
- Mamãe amanhã podemos passar de novo lá na padaria e comprar outra barra?
- Ahã
- Eu vou roubar uma barra para mim.
- Então,
- Mamãe, eu falo roubar só para fazer a frase ficar mais legal.
Explico sentido figurado, efeito de sentido, gasto minhas aulas de linguística...
- Mamãe eu sei que não posso roubar nada, mas fica mais irado.

sábado, 21 de maio de 2016

Da passagem do tempo

Minha filha Cecília é uma criança temporal. Sempre teve uma tendência para identificar o tempo e sua passagem, tanto que não se confundiu ao usar os verbos em seus devidos tempos. Desde de pequena usa o pretérito para o passado, o presente para o presente e o futuro para a nebulosa que não sabemos.
Hoje, ela se deu conta do envelhecimento que traz a passagem do tempo. Estava eu a colocá-la para dormir e enquanto escovava meus dentes escutei que ela chorava. Corri para acudir e perguntei o que havia acontecido. Cecília me olhou com olhinhos tristes e magoados:
- Eu vou sentir saudades de você quando eu crescer.
Um pequeno silêncio se instaurou. Segurei o choro, pois compreendi que sentirá saudades desses momentos únicos que vivemos juntas nessa idade maravilhosa que é a de quatro anos, que sentirá saudades de dormir enroscada comigo, de ser o centro do meu universo e não haver nada mais com que se preocupar além do fato de ser criança e ter pai e mãe para amá-la. Ela percebeu, mesmo que por um átimo de tempo, que envelhecerá e que isso significa que eu não serei mais a mamãe, serei a mãe.
Então fiz o que se pode fazer, coloquei ela em meu colo, a embalei como quando ela era bebe, disse que ela ainda moraria comigo por muitos anos e que, se ela quisesse, a vida toda. Que eu morei na casa da avó dela até bem tarde. Que ela não precisava se preocupar. Se acalmou. Eu não. Fiquei inquieta pensando o que a fez pensar isso. Como, tão pequeninha, pôde notar que o mundo encaminha a gente e, às vezes, ficamos sim longe de quem amamos e sentimos tantas saudades que nos parecem dores físicas. Inquieta em perceber que minha filha compreendeu o que é viver um momento tão maravilhoso  a ponto de saber que sentiremos saudades dele por toda a nossa vida.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Longe é um lugar que não existe

Recebi há muitos anos atrás como presente de aniversário, o livro Longe é um lugar que não existe, do Richard Bach (Fernando Capelo Gaivota). Li e reli naquele período e não entendi, até que hoje, procurando o Roland Barthes, encontrei o livro e com muito atraso compreendi o gesto e o amor atrás das palavras escritas... E isso me fez pensar: e quando as palavras não são ditas, mas significam? E se nós a compreendemos assim, tão longe daquele instante em que foram enunciadas? O que fazemos com o sentimento que em nós é despertado? Ignoramos? Trancamos novamente o livro e as coisas ditas e não tidas dentro da estante? Eu como sou ensimesmada (ou enmimesmada) e guardo esses acontecimentos que vão bordando a minha história, assim, quando acontece tal tipo de sortilégio, uma emoção desconhecida e avassaladora cresce no peito. Talvez saudade, talvez o próprio amor de antes. E uma vontade cálida de um abraço antigo, de uma conversa atordoa o dia. Não há nisso arrependimento, desgosto, há uma saudade genuína - igual a que temos de quando somos crianças - há um apego que fora esquecido e se derrama bruscamente como as tormentas de verão. E descubro atônita que as palavras não ditas habitam, em forma de silêncios, saudades e suspiros a minha existência. Não chega a ser tristeza, apenas aquele olhar oblíquo para o dia, para os morros que se perdem no horizonte, fazendo as palavras brotarem, como agora.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Campo de Vaga-lumes

Há coisas na vida que são para sempre. Uma delas são os vaga-lumes. Quando éramos pequenos, numa passagem que me lembro pouco da minha vida, a vó Dolores mudou-se para perto da Lagoa dos Sapos, lá em Luiziana. A casa dela seria reformada e ela precisou ficar morando nessa por alguns meses. Havia uma pastagem no fundo da casa e à noitinha enchia de vaga-lumes. Eu e o meu irmão ficávamos até escurecer tentando pegá-los. Era lindo. Hoje, eu e a Cecília dos deparamos, na campina da universidade, com um campo de vaga-lumes. Parecia um céu no chão. Um céu de estrelas que se mexiam. E a Cecília observou: mamãe as estão pulando na grama!!! E saímos catar estrelas. Quando pegávamos o vaga-lume ela olhava impressionada a luzinha piscando e depois soltava. E ria. Igual a mim e ao meu irmão e eu pensei que a infância é assim para gente: um céu de estrelas pulando no chão.



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Para dias cinzas

O violão
A manhã cinza
A saudade
Esquecidas as palavras de trabalho
Caberia você, ao menos, em minha poesia
Caberia o desejo no silêncio infinito que  fizeste?
Eu e minha destreza para pertencimentos
Digo-lhe de amor, assim, atravessado
Como quem desconhece os mistérios
- ou neles perdida está -
Digo-lhe de falta como quem sente festejar por dentro
Algum sentimento indolente e obscuro
Que agiganta em mim a tua urgência.
A manhã cinza
O violão
As palavras não te alcançam
Mas o que mais poderia eu fazer?


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Das coisas que guardamos dos caminhos

Em O Amor no Tempo do Cólera o amor entre Florentino Ariza e Fermina Daza é algo da ordem do inusitado. E lá pelas tantas na narrativa, Florentino pergunta algo como 'o que fazemos com o amor que sentimos e não podemos sentir, dizer?' A pergunta não é exatamente essa, mas o que fazemos? O que fazemos com a coleção de sentimentos que vamos juntando ao longo da vida? Eu, como bem disse em outros escritos, sou das que sente e guardam, como se o sentimento fosse um velho conhecido, alguém que encontro de quando em quando e a quem cumprimento respeitosamente. Sempre tive dessas estranhezas: carregar relicários de pequenas lembranças de lugares, pessoas, cheiros, para sentir saudades. Antes, quando ainda era afoita para entendimentos, não compreendia bem, achava melhor não pensar sobre esses descaminhos. Agora, mais velha, acho mesmo graça em relembrar e em sentir saudade. É um exílio. Na criancice me alongava para o quintal, sempre fui de silêncios para as coisas não compreendidas, agora me alongo para esses lugares que me habitam. Pensar isso, me faz lembrar do sítio. Na roça a gente tem os morros onde os ventos fazem dançar o capim. Custava para me cansar de ver a dança. E em dias como o de hoje, quando há no  cheiro da tarde qualquer coisa de conhecido, me lembro da sensação. Talvez seja a razão de guardar: a dança do capim, o cheiro da velhice da minha vó, da mala de motorista do pai... Talvez sejam as coisas que guardamos do caminho. Quem sabe isso e o amor que sentimos e que não podemos mais dizer....

My heavy heart

  My heavy heart A canção do Coldplay toca no rádio do carro. Your heavy heart é feito de pedra. Você não precisa ser sozinha....voltando ...