sábado, 18 de junho de 2016

Nome para chamar

Para nomear o amor:
Risadona da Cecília
cheiro de chuva em terra seca
um dia de sol no inverno
a escola de quando se é pequeno.
nossos rios da infância.
As coisas me nomeiam pelo lado de fora:
os cheiros daqueles que amamos
As árvores olhadas de baixo
Geada branqueando a grama
A mão que aperta  no abraço
E tudo vai ganhando nome e vai virando palavra para poesia e poemas na vida
Há tanta beleza em tentar nomear o mundo
E há tanto mundo
Antes, quando sofria de pertencimento, me aborrecia por não conseguir nominar o indizível...
Agora que também sou rio, corro com o mundo e tudo está em mim.




terça-feira, 14 de junho de 2016

Eu leio para encontrar nos poemas, nas palavras, alguma coisa faltante em mim. Não é fraqueza. Os meus tempos foram feitos de pedra, de asperezas, do silêncio daquilo que ficou por dizer. Então, espio nas palavras o mundo. Não há mansidão em mim. Tormento como quem deseja o impossível, como quem espera o beijo, como quem sabe que para o sentimento latente não há abrandamento. Assim pulsam os dias diante dos meus olhos. Pulsam as palavras e eu tento prendê-las, capturá-las para me fazer nominável. Eu quero mesmo a palavra para dizer da saudade. Para fazer presente em mim os mundos ausentes. Ah, mas contraditória que sou, gostaria mesmo de não precisar de palavra alguma e caber na imensidão do abraço que agora me falta. Mirar teus olhos de lua e ver tudo explicado.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Cecilices

Ilusão
- Mamãe o que é uma ilusão?
- É uma coisa que você pensa que é mais não é.
- Hum.
Passa um tempo
- Mamãe eu pensei que eu vi a Lisbela, mas não vi. Isso é uma ilusão?

Linguística
Na volta da escola,passamos na padaria. Ela escolhe uma barra de cereal nunca antes provada. Gosta demais e vem o resto do caminho dizendo o quanto gostou.
- Mamãe amanhã podemos passar de novo lá na padaria e comprar outra barra?
- Ahã
- Eu vou roubar uma barra para mim.
- Então,
- Mamãe, eu falo roubar só para fazer a frase ficar mais legal.
Explico sentido figurado, efeito de sentido, gasto minhas aulas de linguística...
- Mamãe eu sei que não posso roubar nada, mas fica mais irado.

sábado, 21 de maio de 2016

Da passagem do tempo

Minha filha Cecília é uma criança temporal. Sempre teve uma tendência para identificar o tempo e sua passagem, tanto que não se confundiu ao usar os verbos em seus devidos tempos. Desde de pequena usa o pretérito para o passado, o presente para o presente e o futuro para a nebulosa que não sabemos.
Hoje, ela se deu conta do envelhecimento que traz a passagem do tempo. Estava eu a colocá-la para dormir e enquanto escovava meus dentes escutei que ela chorava. Corri para acudir e perguntei o que havia acontecido. Cecília me olhou com olhinhos tristes e magoados:
- Eu vou sentir saudades de você quando eu crescer.
Um pequeno silêncio se instaurou. Segurei o choro, pois compreendi que sentirá saudades desses momentos únicos que vivemos juntas nessa idade maravilhosa que é a de quatro anos, que sentirá saudades de dormir enroscada comigo, de ser o centro do meu universo e não haver nada mais com que se preocupar além do fato de ser criança e ter pai e mãe para amá-la. Ela percebeu, mesmo que por um átimo de tempo, que envelhecerá e que isso significa que eu não serei mais a mamãe, serei a mãe.
Então fiz o que se pode fazer, coloquei ela em meu colo, a embalei como quando ela era bebe, disse que ela ainda moraria comigo por muitos anos e que, se ela quisesse, a vida toda. Que eu morei na casa da avó dela até bem tarde. Que ela não precisava se preocupar. Se acalmou. Eu não. Fiquei inquieta pensando o que a fez pensar isso. Como, tão pequeninha, pôde notar que o mundo encaminha a gente e, às vezes, ficamos sim longe de quem amamos e sentimos tantas saudades que nos parecem dores físicas. Inquieta em perceber que minha filha compreendeu o que é viver um momento tão maravilhoso  a ponto de saber que sentiremos saudades dele por toda a nossa vida.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Longe é um lugar que não existe

Recebi há muitos anos atrás como presente de aniversário, o livro Longe é um lugar que não existe, do Richard Bach (Fernando Capelo Gaivota). Li e reli naquele período e não entendi, até que hoje, procurando o Roland Barthes, encontrei o livro e com muito atraso compreendi o gesto e o amor atrás das palavras escritas... E isso me fez pensar: e quando as palavras não são ditas, mas significam? E se nós a compreendemos assim, tão longe daquele instante em que foram enunciadas? O que fazemos com o sentimento que em nós é despertado? Ignoramos? Trancamos novamente o livro e as coisas ditas e não tidas dentro da estante? Eu como sou ensimesmada (ou enmimesmada) e guardo esses acontecimentos que vão bordando a minha história, assim, quando acontece tal tipo de sortilégio, uma emoção desconhecida e avassaladora cresce no peito. Talvez saudade, talvez o próprio amor de antes. E uma vontade cálida de um abraço antigo, de uma conversa atordoa o dia. Não há nisso arrependimento, desgosto, há uma saudade genuína - igual a que temos de quando somos crianças - há um apego que fora esquecido e se derrama bruscamente como as tormentas de verão. E descubro atônita que as palavras não ditas habitam, em forma de silêncios, saudades e suspiros a minha existência. Não chega a ser tristeza, apenas aquele olhar oblíquo para o dia, para os morros que se perdem no horizonte, fazendo as palavras brotarem, como agora.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Campo de Vaga-lumes

Há coisas na vida que são para sempre. Uma delas são os vaga-lumes. Quando éramos pequenos, numa passagem que me lembro pouco da minha vida, a vó Dolores mudou-se para perto da Lagoa dos Sapos, lá em Luiziana. A casa dela seria reformada e ela precisou ficar morando nessa por alguns meses. Havia uma pastagem no fundo da casa e à noitinha enchia de vaga-lumes. Eu e o meu irmão ficávamos até escurecer tentando pegá-los. Era lindo. Hoje, eu e a Cecília dos deparamos, na campina da universidade, com um campo de vaga-lumes. Parecia um céu no chão. Um céu de estrelas que se mexiam. E a Cecília observou: mamãe as estão pulando na grama!!! E saímos catar estrelas. Quando pegávamos o vaga-lume ela olhava impressionada a luzinha piscando e depois soltava. E ria. Igual a mim e ao meu irmão e eu pensei que a infância é assim para gente: um céu de estrelas pulando no chão.



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Para dias cinzas

O violão
A manhã cinza
A saudade
Esquecidas as palavras de trabalho
Caberia você, ao menos, em minha poesia
Caberia o desejo no silêncio infinito que  fizeste?
Eu e minha destreza para pertencimentos
Digo-lhe de amor, assim, atravessado
Como quem desconhece os mistérios
- ou neles perdida está -
Digo-lhe de falta como quem sente festejar por dentro
Algum sentimento indolente e obscuro
Que agiganta em mim a tua urgência.
A manhã cinza
O violão
As palavras não te alcançam
Mas o que mais poderia eu fazer?


My heavy heart

  My heavy heart A canção do Coldplay toca no rádio do carro. Your heavy heart é feito de pedra. Você não precisa ser sozinha....voltando ...