quarta-feira, 29 de julho de 2015
Dois dias de sol
Dois dias de sol. Mesmo que o país ande uma bagunça. Mesmo que o cunha continue lá. Mesmo com tanta mentira espalhada. Mesmo sendo hoje 29 e três meses atrás professores/as apanhavam sob o silêncio da mídia, dos governantes, da sociedade.... Mesmo assim, hoje faz sol no Rio Grande, cujo o imposto sob a conta de luz chegou, esse mês a quase 50 reais, mesmo com as ruas esburacadas e centenas (aqui já são centenas) de pessoas morrendo em postos de saúdes, em filas de hospitais, porque o repasse da saúde está atrasado. Mesmo assim, depois de tanta chuva, tanta gente molhada, de casa inundada, por falta de investimento, por falta de sensatez, de honradez da corja que há séculos governa o país. Dois dias de sol seguidos, para a roupa secar, os cobertores, para tirar a lama de casa, para secar o choro e voltar a trabalhar. Dois dias de sol seguidos.
sábado, 20 de junho de 2015
E também naqueles dias
Quem leu Saramago sabe que a mágica das palavras não está
(aliás, nunca esteve – embora esperneiem os estruturalistas e formalistas por
causa disso) na construção do texto. Está na ponte que ele nos lança e faz com
que lancemos para um lugar dentro de nós. A nossa memória é ardilosa e a
seleção do que é guardado é um tecido de incoerência e contradição, mas, ah,
quanta poesia cabe nesses filminhos que montamos sobre nossa existência. E o
Saramago faz isso com as palavras. Ele une as palavras aos nossos filmes de
vida. Pois bem, eu li a Bagagem do Viajante ainda na graduação. Penso inclusive
ter feito algum trabalho de alguma disciplina com a crônica do Crime da
Pistola. Mas, o que melhor define esse livro é o texto E também naqueles dias. Quanta
coisa minha coube nessa crônica! Quantas sensações de outros tempos, do sítio,
das coisas da roça. Perdoe-se a quem
nasceu no campo, e dele foi levado cedo, esta insistente chamada que vem de
longe e traz no seu silencioso apelo uma aura, uma coroa de sons, de luzes, de
cheiros miraculosamente conservados intactos. O mito do paraíso perdido é o da
infância - não há outro. O mais são realidades a conquistar, sonhadas no
presente, guardadas no futuro inalcançável. E sem elas não sei o que faríamos hoje.
Eu não o sei
Uma identificação imediata com o menino. A gente cresce e
vira viajante e sai pelo mundo em andanças e ciganias. E coisas vão deixando de
caber nas nossas mudanças. Há saudades e a saudade é justamente esse lugar no
mundo que nos faz pertencer a uma memória, aos sujeitos das nossas memórias, a querer,
poeticamente, nossos lugares e nossas pessoas mais perto. E as distâncias que
tanto nos incomodam, acabam quase sempre num abraço. Não há para isso ainda
tecnologia. Para a poesia do reencontro: com os outros e com as nossas
realidades a conquistar.
terça-feira, 9 de junho de 2015
Do fim para o começo
Escolhi
escrever um blog. Faz tempo isso, mas, concretamente, agora tornou-se real. Ainda
é tudo muito recente e ainda soa esquisito ver meu texto ali – como se fosse
outra de mim, uma estrangeira usando minhas palavras. E escrever o blog é mesmo
para me acostumar com o mundo fora da gaveta É pela necessidade de libertar-me
de tantas palavras que habitam minha existência. Apenas.
O
nome do blog é um atravessamento de leitura feita do poema Hermano dame tu mano
de Jorge Sosa e Damián Sánchez e está numa agenda do MST que ganhei em 2010 lá
em Querência do Norte. A palavra também é terra e a terra também é um lugar de
brotar palavras.
Hermano
dame tu mano
Vamos
juntos a buscar
Uma
casa pequenita
Que
se llama libertad.
Esta
es la hora primeira
Este
es el justo lugar
Abre
la puerta que afuera
La
tiera no aguanta más.
Mira
adelante Hermano
Es
tu tierra la que espera
Sin
distancias, ni fronteras
Que
pongas alta la mano.
Esta
tierra es la que espera
Que
el clamor americano
Le
baje pronto la mano
Al
señor de las cadenas...
domingo, 7 de junho de 2015
Das tardes de domingo
Das tardes de domingo
Antes – da pressa, dos prazos, da internet, da correria – os
domingos eram o dia da preguiça. Acordava tarde, ajudava aqui e ali em casa,
via a vida no quintal, voltava para preguiçar mais um pouco: arrumar uma
bagunça no quarto, nada que exigisse grande esforço. Almoço, um pouco mais de
preguiça, talvez um cochilo, ler alguma para a segunda e ir ao encontro. O
complemento do verbo é sempre fundamental, pois nos anos que seguiram minha
mudança para Campo Mourão, não faltaram grandes camaradas: íamos ao parque do Lago
quando ainda havia lá lanchonete e shows no fim da tarde. Quase sempre MBP. Foi
ali que ouvi pela primeira vez Jardim da Fantasia: “Bem-te-vi, bem-te-vi e
andava num jardim em flor....” do Paulinho Pedra Azul. A vida acontecia de
outro modo, muito do que aprendi sobre militância, poesia e boa música está
relacionado a esse período. Outro dia visitei o Parque do Lago e todo aquele
espaço disponível e pouco utilizado é um desalento... E me lembrei disso hoje,
pois a Cecília acordou cedo e feliz da vida por ser domingo. Ah o tempo que não
quer ir mais devagar! Essa correria que faz com estejamos sempre a nos deparar
com a saudade de um tempo ido e deseja-lo de volta. Ainda bem que as crianças
estão aí a espalhar sabedoria, correria e bolhas de sabão nos domingos,
colorindo tudo, nos mostrando que a saudade é sempre um lugar de sorrisos, de
melodias conhecidas, de cheiros de gente amada, mas que o real é o lugar da
poesia. Encontrar o domingo da vida é encontrar a história e nela tecer outros
caminhos....
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